Isabela
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Paulo chega cansado como sem-
pre. Sobe para o quarto. O calor 
está insuportável! Irritado com a 
gravata,  o suor,  a gritaria das 
crianças na piscina e com mais 
alguma coisa que não sabe bem 
o que é,  escancara  a  janela e 
quando está prestes a esbravejar
...Suspende o grito, a respiração 
e chega a sentir frio... Como po-
de Isabela estar ali, na sua pis-
cina, no meio dos meninos! Co-
mo teria acontecido isso? As cri-
anças na maior intimidade como 
se conhecessem há muito tempo,
e Isabela ali, ali entre eles, inex-
plicavelmente ali, na sua piscina, 
com seus filhos !  Com o olhar 
confuso Paulo acompanha Isa-
bela deslizando na água. Linda 
como sempre, mas ali, ali no 
meio dos meninos, parece um
tanto patética. É a primeira vez 
que a vê assim, ao ar livre, ca-
belos molhados, boiando, os 
enormes olhos azuis espetados 
no azul do céu... Paulo está ofe-
gante e Isabela, que ridícula, 
parece não respirar !  Dá a im-
pressão que ela tem de perma-
necer imóvel para não afundar.
Os meninos parecem tentar en-
siná-la a nadar. Ela bóia, mas 
não sabe nadar. Ela bóia poque 
bóia, é de sua natureza. Mas na-
dar não sabe.  Que vergonha ! 
Deve ser isto, Isa bela quer vin-
gança, quer matá-lo de vergo-
nha, único recurso que tem: o
o poder de humilhá-lo! E em um
dia tão quente... Paulo fecha os 
olhos para ter certeza do que vê: 
Isabela nua, os seios fartos cha-
mando pelos meninos que pulam 
sobre ela, espalhando água e des-
pudor por todos os lados! Isabela 
afunda, mas logo está de volta com 
seu ventre arredondado. Cada vez 
que afunda e volta à tona é como
se surgisse pela primeira vez aos 
olhos de Paulo. As gargalhadas e 
o barulho da água parecem entor-
pecê-lo lentamente. Sabe que pre-
cisa tirar Isabela dali, mas não con-
segue dar só um passo. O corpo de 
Isabela passando de mão em mão
parece tão leve, tão feito de nada, 
que não há mesmo como culpá-la. 
Ou é o corpo de Paulo que começa 
a estranhar-se, a estranhar-se, a 
estranhar-se... Recuperando do des-
maio Paulo põe-se de pé, decidindo 
a tirar Isabela dali. Olha pela janela.
Todo aquele corpo confirma, cada 
pedacinho... foi mesmo feito para o 
sexo e ainda assim guarda algum 
mistério. Um mistério que vem de 
sua leveza feminina. Dá a impressão 
que, tirando-lhe a pele, não há co-
mo possuí-la. São assim as mulhe-
res. Pura impos-bilidade...  Paulo 
está assim, em seus desvaneios, 
quando um grito o faz estremecer.
Não! Não há mais como evitar o 
desastre! Da janela ele assiste tudo. 
Marta, sua esposa, expulsando as
crianças da piscina e arrastando Isa-
bela pelos cabelos. Não há mais co-
mo evitar a vergonha e a cul-
pa! Estático no corredor, Pau-
lo observa Marta subindo as 
escadas, arrastando Isabela. 
Sem olhar para o marido, 
Marta atira Isabela sobre a 
cama. O corpo obsceno pa-
rece levar uma eternidade pa-
para tombar sobre os lençois... 
mas Marta leva um só segundo 
para saltar sobre Isabela e lhe 
arrancar a al-ma. Paulo ficou 
ali parado, esperando Isabela 
se esvair. Por fim apalpa-lhe 
o peito, um último e demo-
rado sopro... Pronto, está tu-
do ter-minado. Paulo começa
a dobrar Isabela pelos pés. 
Sempre foi meticuloso com 
isso, como se cumprisse um
ritual de purificação. Passo
a passo, dobradura por do-
bradura, um origame sinistro 
que desfaz a forma e cria nada. 
O caixãozinho de Isabela foi 
lacrado com a mesma etiqueta 
vermelha com que veio da loja:
Love Sex Shopping. Paulo foi 
sempre muito cuidadoso... 


                                  Elionice